É hora de abandonar a distância percorrida como KPI no futebol de alto rendimento?

O estudo, liderado por especialistas renomados como Martin Buchheit e Raymond Verheijen, propõe uma mudança de paradigma na forma como avaliamos o desempenho físico no futebol de elite.

Aqui está uma explicação didática dos pontos principais:

1. Correr é Consequência, não Objetivo

O artigo defende que o volume de corrida (distância total percorrida) deve deixar de ser um KPI (Indicador Chave de Desempenho). No futebol, correr é um subproduto das ações de jogo (chutar, marcar, desmarcar-se) e das decisões táticas.

  • Exemplo prático: Se um time leva um cartão vermelho, os jogadores restantes correm mais para compensar a falta do colega. Isso não significa que ficaram “mais condicionados” durante o jogo, mas sim que a demanda tática mudou.

2. O Conceito de “Fitness” e “Freshness” como Pré-condições

Os autores sugerem que, em vez de focar no quanto o atleta correu, devemos focar na sua Prontidão (Readiness), que é composta por dois pilares:

  • Football Fitness (Condicionamento): Não é apenas o VO2máx, mas a capacidade de realizar ações de futebol repetidamente em alta intensidade por mais de 90 minutos.
  • Freshness (Frescor/Recuperação): O estado neuromuscular do jogador no dia do jogo.

O ponto crucial é que fitness e freshness são pré-condições para o desempenho, ou seja, são o que permitem ao jogador executar a tática do treinador, mas não garantem a vitória por si só.

3. Resultados Surpreendentes: Correr Menos pode Ganhar Mais

A pesquisa analisou dados de três temporadas de um clube de elite e descobriu que:

  • A maior probabilidade de vitória ocorreu quando os jogadores tinham Alto Fitness + Alto Freshness + Baixa Distância percorrida.
  • Partidas com maior volume de corrida foram associadas a empates, provavelmente porque os dois times estavam desesperados tentando quebrar o equilíbrio do placar.
  • Correr muito tendo “baixo fitness” foi o cenário com menor chance de vitória.

4. Monitoramento Inteligente (Ciência do Esporte 3.0)

O estudo utilizou o que chamam de “Ciência do Esporte 3.0”, que evita testes físicos isolados e usa o monitoramento embutido nos treinos diários:

  • Índice de Fitness (FI): Avalia se a frequência cardíaca do jogador está menor do que o esperado para uma determinada carga de treino (menor esforço fisiológico).
  • Índice de Freshness (FR): Avalia a eficiência mecânica, comparando a carga externa com o impacto neuromuscular (PlayerLoad).

Resumo para a sua Prática:

  1. Pare de valorizar a distância total isolada: Um jogador que corre muito pode estar apenas mal posicionado taticamente.
  2. Foque na qualidade das ações: O sucesso depende da sustentabilidade e da qualidade das ações de futebol, não apenas da quilometragem.
  3. Economia de energia gera melhor decisão: Jogadores que estão bem condicionados e descansados (alta prontidão) conseguem manter um “custo interno” menor, o que preserva o cérebro para tomar melhores decisões táticas.
  4. Estratégia para jogadores cansados: Se os seus índices de prontidão mostram que o atleta não está “fresco” nem “fit”, a estratégia recomendada é limitar os deslocamentos desnecessários para gerenciar o gasto de energia.

Em suma, o artigo nos convida a tratar o condicionamento como o suporte que permite ao talento e à tática aparecerem, e não como o fim principal do treinamento.

Referência:

Time to drop running as a KPI in elite football: football fitness and freshness as match-day preconditions


Mauro Mandorino, Mathieu Lacome, Raymond Verheijen, Martin Buchheit

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